Biofertilizante transforma realidades no campo de MS

Postado por maria.espindola em 15/abr/2026 - Sem Comentários

Do resíduo ao insumo: economia circular impulsiona produção no campo sul-mato-grossense

O que antes era tratado como resíduo agora ganha um novo valor no campo. O FertBio-MS nasce como uma solução sustentável que promove a reutilização de recursos e fortalece a agricultura familiar de Mato Grosso do Sul, articulando saneamento, produção e desenvolvimento territorial.

Considerada pioneira no Brasil, a iniciativa é resultado da parceria entre a Ambiental MS Pantanal (Parceria Público-Privada entre Aegea e Sanesul), a empresa Organics e a Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural), com apoio do Governo do Estado.

Desde o lançamento do projeto em junho de 2024, foram geradas 1.257 toneladas de fertilizante orgânico. Desse total, 20% são distribuídos gratuitamente a comunidades rurais em situação de vulnerabilidade, como assentamentos, quilombos e aldeias indígenas.

Mais do que dar nova destinação ao resíduo, o FertBio-MS vem gerando efeitos concretos na produção agrícola familiar. Segundo estimativas da Agraer, o uso do produto reduziu significativamente os custos de produção. O cultivo de um pé de alface, por exemplo, passou de R$ 0,89 para menos de R$ 0,50, enquanto o valor de venda pode chegar a até R$ 5,00, especialmente em produções com maior rigor e acompanhamento técnico.

Os resultados também já são percebidos nas comunidades atendidas. No quilombo Chácara Buritis, onde vivem cerca de 80 famílias, a produção de hortaliças mais que dobrou em alguns canteiros. As entregas do biofertilizantes são distribuídas diretamente aos agricultores por meio da Agraer, alcançando aldeias indígenas, grupos de mulheres agricultoras, viveiros de mudas e cooperativas.

O produto é resultado da combinação entre o lodo gerado nas Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e o esterco bovino proveniente do gado criado em confinamento, seguindo princípios da economia circular.

Para o gerente de Meio Ambiente da concessionária Fernando Garayo, recuperar e regenerar resíduos é um dos pilares desse modelo. “A reutilização de biossólidos na agricultura fornece nutrientes essenciais ao crescimento das culturas e contribui para o aumento do teor de matéria orgânica e da capacidade de retenção de água no solo”, explica.

Rico em nutrientes e em potencial transformador, o FertBio-MS já apresenta resultados concretos no estado. A pequena produtora Eliane dos Santos, do Assentamento Estrela, em Jaraguari, município do interior do Estado, a 44 km da capital, relata ganhos expressivos após a primeira aplicação. Atuando na pecuária leiteira, ela observa melhora significativa na qualidade do pasto, com reflexos diretos na produtividade e na redução de custos. “A evolução do capim trouxe economia e aumento no desempenho do gado”, afirma.

De acordo com o engenheiro agrônomo da Agraer, Arioval Diogo, o principal impacto está na redução de custos para o pequeno produtor. “O biofertilizante melhora a saúde do solo e promove um crescimento mais vigoroso das plantas, contribuindo para uma produção mais eficiente e sustentável. A diferença é visível tanto no campo e quanto na renda.”

Para o diretor-presidente da Ambiental MS Pantanal, Gabriel Buim, o FertBio-MS representa a integração entre saneamento e desenvolvimento regional. “Destinamos cerca de 10 toneladas para cada entidade. O biofertilizante chega a assentamentos, aldeias indígenas, viveiros de mudas e outros projetos, alcançando pequenos produtores, mulheres agricultoras e comunidades tradicionais, que são expressões vivas do nosso território”, destaca.

Em seminário inédito, ABES-MS debate uso de biossólidos do esgoto para fertilização de solos cultiváveis

Postado por paintbox em 09/dez/2021 -

Em evento inédito no Mato Grosso do Sul, a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), realizou, nesta quarta-feira (8), um seminário em Campo Grande cuja pauta foi a utilização de biossólidos resultantes do tratamento de esgoto em solos cultiváveis, áreas degradadas e áreas de reflorestamento no estado.

De acordo com os organizadores, a ideia foi expor e discutir soluções inteligentes para dar um destino mais nobre ao lodo – rico em nutrientes -, que atualmente acaba indo parar em aterros sanitários em regiões específicas do MS: um estado de economia predominantemente agrícola.

A utilização do lodo para a fertilização e correção de solos cultiváveis já é comum em países da Ásia, Europa e América do Norte. O subproduto do tratamento de esgoto pode conter nutrientes como nitrogênio, potássio e fósforo, cujas fontes são escassas e a extração dispendiosa.

No Brasil, no entanto, barreiras culturais e entraves regulatórios tornam a prática menos aceita, de acordo com especialistas. O Paraná é o único estado em que essa ideia saiu do papel e conta com adeptos do setor agrícola.

Neste cenário, o Brasil se vê dependente da importação de fertilizantes de países como Rússia, China e Estados Unidos, o que acaba pressionando a inflação de produtos agrícolas, tornando-os mais caros. De quebra, os preços ficam vulneráveis a flutuações cambiais.

Além disso, o transporte do lodo rico em nutrientes aos aterros sanitários pode reduzir sua vida útil e demanda a queima de combustíveis fósseis e consequente emissão de gases-estufa, que contribuem para o aquecimento global.

“Poucas empresas no mundo vendem fertilizantes … o biossólido gerado nas ETEs não vai atender toda a demanda para produção de alimentos, mas, por outro lado pode salvar o negócio de vários produtores, até mesmo os pequenos produtores, que veem interesse e possuem capacidade de ter acesso a esse fertilizante”, disse Fernando Magalhães, presidente da ABES-MS.

Referência nacional. O seminário reuniu cientistas, estudiosos, agências reguladoras e representantes concessionárias de tratamento de água e esgoto, e acontece em um momento em que o modelo de universalização do saneamento básico do Mato Grosso do Sul é apontado como referência nacional, por ter se antecipado ao Marco Legal do Saneamento, sancionado em 2020 pelo Governo Federal.

A nova legislação abriu caminho para a criação da empresa Ambiental MS Pantanal – apoiadora do evento – que surgiu da Parceria Público-Privada (PPP) entre a Sanesul e o Grupo Aegea, a maior empresa privada de saneamento do país.

A PPP tem a meta ambiciosa de universalizar o esgotamento sanitário nos 68 municípios em que a PPP já atua até 2031. Com isso, mais 1,7 milhão de sul-mato-grossenses terão acesso aos serviços de saneamento, posicionando o MS como o primeiro estado do país a universalizar o saneamento básico.

Como consequência da universalização, a produção de lodo no estado deve aumentar consideravelmente nos próximos anos, e a PPP vem estudando formas de reduzir o impacto de suas atividades e otimizar os processos. “O evento foi muito importante, pois deixou claro que o lodo é um biossólido que pode ser utilizado de várias formas”, disse Marjuli Moroshigue, gerente de tratamento de água e esgoto da Aegea Centro Oeste. “Essa ideia está alinhada com o objetivo da concessionária de ser cada vez mais sustentável em todas as etapas das Estações de Tratamento de Esgoto”, acrescentou.

O evento contou com a presença do superintendente de Ciência e Tecnologia, Produção e Agricultura Familiar da Semagro, Rogério Beretta e a participação dos palestrantes Carlos Chernicharo, do INTC; Pablo Sezerino, do grupo Wetlands Brasil; Simone Bittencourt, da Sanepar; José Pádua, da FAMASUL; Rodiney de Arruda Mauro, da Embrapa MS; Alex Melotto, da Fundação MS; Gyslaine Bittencourt, da UEMS; Guilherme Cavazzana, da UFMS e Fernando Magalhães, da UCDB. Assista o evento na íntegra clicando aqui.